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Lançamento do livro: Laila tinha uma surpresa. Uma história de Shabat

Hoje  quero falar do lançamento de um livro que tem duas autoras, Tania Menai e Luciana Pajecki Lederman. Conta também com a ilustradora carioca Babi Wrobel Steinberg.

Antes de falar do livro, quero contar pra vocês como conheci a Tania.(Fiz um post, um tempinho atrás falando de algumas pessoas incríveis que conheci através da internet. Se você quiser ler o post clique aqui.)

Então,Tania é uma destas pessoas incríveis! Pesquisando pela internet cheguei ao site dela.
Fui lendo as entrevistas (que ela é craque em fazer), conheci o blog que ela mantém na revista TPM, o SóemNY e fui me tornando fã de tudo que ela escrevia. Acompanhei o lançamento do primeiro livro, do Oiapoque ao Chui e o nascimento da filhinha Laila. Neste tempo já a conhecia pessoalmente e fiquei mais fã ainda.
imaginem a minha felicidade quando ela aceitou desenvolver um trabalho conosco!!
:)
Tenho o maior orgulho de ter no currículo do nosso escritório algumas newsletters escritas por ela.
Você pode ler alguns dos textos da Tania que publiquei no blog aqui, aqui e aqui.

Vamos ao livro:
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O Livro (Texto do site, por Tania Menai).

Tudo começou num delicioso almoço de Shabat na casa da Luciana, em outubro de 2013, em Nova York. Conversamos sobre a quantidade e variedade de livros judaicos para crianças em livrarias americanas: pessach, chanuká, sukot, eles tem de tudo. A comparação é sempre inevitável: no Brasil, a realidade é outra.

Adoraríamos que as crianças brasileiras também pudessem usufruir de livros com temas judaicos feitos para elas, com um toque contemporâneo e tropical. Então resolvemos criar! Nossa intenção é escrever uma série que inclui festas e valores. Para começar, elegemos o Shabat, por ser atemporal, universal e cada vez mais necessário.

Resolvemos que a história giraria em torno de uma família moderna, que inclui avô sefaradi, avó esquenazi, pai, mãe e três filhos: uma menina e seus dois irmãos mais velhos. Os nomes das crianças são em hebraico, curtos e acabaram sendo dos nossos próprios filhos. Prezamos a mistura, a abertura e a diversidade: as cenas na escola mostram bem isso.

Tentamos passar a mensagem de um judaísmo contemporâneo, vivido na realidade brasileira, ou de qualquer país da América Latina. Um livro para famílias de casamentos mistos, para crianças judias e não-judias, para crianças de escolas judaicas ou não. Enfim, um livro para crianças.

O tema da história gira em torno de tempo e família e acertamos em cheio ao escolher – a dedo – a Babi para ilustrá-lo. Ela mora no Rio, então nossas reuniões eram por Skype. O resultado não poderia ter sido melhor, não acham?

Nosso projeto sempre foi recebido com sorrisos. Ainda em fase embrionária, a Miriam Gabbai da Editora Callis topou publicá-lo. A partir daí, partimos para a fase de captação de recursos. Para a nossa surpresa, um pequeno grupo de amigos colaboraram sem pestanejar.

Além disso, 160 amigos e conhecidos colaboraram em nossa campanha de crowdfunding, via o site Catarse, que teve mais de mil compartilhamentos em mídia social. Levantamos 130% do valor solicitado, em apenas duas semanas (o prazo era 40 dias!).

Dois anos e muitos capuccinos mais tarde, esperamos que a leitura traga sorrisos, seja um ótimo companheiro das horas em família e incentive, cada vez mais, a apreciação deste tempo.

 

Sobre as autoras:

A paulistana Luciana Pajecki Lederman vive em Nova York, onde cursa Doutorado em Talmud e Educação. Depois de estudar direito e psicologia,em São Paulo, mudou-se em 1999 com o marido para Nova York, onde estudou em horário integral no Jewish Theological Seminar, na Columbia University, deu aulas, participou de seminários, realizou casamentos e trabalhou como voluntária em hospitais e residências para idosos. No Brasil, ela exerceu o rabinato na comunidade paulistana Shalom entre 2005 e 2011, com a qual mantém um forte vínculo.

A jornalista Tania Menai nasceu no Rio de Janeiro, formada em comunicação social pela PUC. Radicada em Nova York desde 1995, de onde trabalha para a mídia brasileira, foi correspondente das revistas Veja e Exame, radio CBN e TV Futura – colabora até hoje para publicações como revista Piaui, Projeto Draft, Trip, TPM, Viagem e 3/3 Turismo, além de publicações costumizadas. É autora de dos livros “Nova York do Oiapoque ao Chui” (Ed. Casa da Palavra), “Tirado os Sapatos” (Ed. Rocco) co-escrito com o rabino Nilton Bonder, e Guia de Nova York (Ed. Abril). Mais em taniamenai.com e nychui.com

A ilustradora carioca Babi Wrobel Steinberg, vive no Rio de Janeiro. Ela é formada em design gráfico com mestrado na Pratt Institute de Nova York. De volta ao Brasil, elaborou trabalhos para estúdios de animação, publicidade, livros infantis, revistas, estamparia, moda, embalagens –chegou a participar da renomada exposição “Ilustrando em Revista”, da Ed. Abril. Babi trabalha com técnicas digitais (ideal para o e-book) e tradicionais como aquarela, lápis de cor, pastel e nanquim. Seu mais recente livro foi lançado em 2014, trazendo um conto que ela escutava de seu pai, Ivan Wrobel: Todo Mundo Saiu. (Editora Escrita Fina). Mais em babiws.com.br

 

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Serviço:
Dados: Callis Editora
Autoras: Tania Menai e Luciana Pajecki Lederman
Ilustradora: Babi W. Steinberg
48 páginas, com texto para os pais e receita de chalá na parte final
Lançamentos:
São Paulo – 29 de novembro de 2015 `as 15.30 na Livraria Cultura do
Shopping Iguatemi (leitura com autoras `as 16hs)
Rio de Janeiro – 17 de janeiro de 2016 `as 17hs na Livraria Argumento
do Leblon (leitura com as autoras `as 17.30hs)

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Arte e quebra-cabeça anti-stress para adultos

Li no Conexão Paris uma notícia interessante. Como os livros para colorir tem alcançado um novo público: os adultos. Os livros são usados como uma forma de aliviar o stress.
Pintar, escolher as cores, concentrar-se em uma atividade lúdica, faz com que os adultos esqueçam os problemas do dia a dia, além de remetê-los aos tempos de criança, tempos de poucas responsabilidades (pelo menos deveriam ser) e preocupações.

No Brasil achei uma bonita opção, o Jardim Secreto.
Procurei na Saraiva o livro e não encontrei, pela internet está disponivel.

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A cor da capa não é a cor original, eu pintei de rosa!!

O post do Conexão apresenta várias editoras com esta proposta e seus respectivos livros para colorir. Para ler o artigo clique aqui.

Nas opçōes um livro de Beatriz Milhazes da Fundação Cartier.

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Estes dias, a querida Nina Horta também publicou em seu facebook uma foto e falou sobre o assunto. Falou da modinha do momento e que ela aderiu, pintou também.

Nesta linha anti-stress, vale citar um brinquedo que serve para todas as idades, só que adaptado aos tempos modernos, o aplicativo lançado pelo MAM no segundo semestre de 2014.
Um aplicativo que é uma quebra-cabeça com as obras do acervo do Museu.
Boa opção que ainda nos ajuda a aprender mais sobre as obras e artistas.
Saiba mais no site do MAM aqui
Vou instalar o aplicativo e depois conto meu progresso no processo.

Ah! Se alguém souber de livros similares aqui no Brasil, por favor, me avise para que eu possa dar a informação. eu não encontrei.

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Análise da Obra: “O Remorso de Orestes” de Willian Adolphe Bouguereau por Luciene Felix Lamy

Começando o ano com mais uma incrível análise completa de Luciene Felix Lamy.
Vale a pena ler com calma e olhando cada parte da obra para entender bem todos os detalhes e o contexto da história.
Boa leitura! Aguardo os comentários!!

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“O Remorso de Orestes” de Willian Adolphe Bouguereau

Análise da Obra: “O remorso de Orestes” de William­ Adolphe Bouguereau

IMAGEM: Bouguereau.Orestes

LEGENDA DA IMAGEM: O remorso de Orestes (1862), de William­Adolphe Bouguereau (1825­

1905). The Chrysler Museum of Art, Nortfolk, Virgínia.

Bouguereau foi um talentosíssimo pintor do belo, do sublime, da meiguice e da docilidade (basta dar um “Google Imagens” para constatar que você sempre adorou sua arte). Mas nas poucas obras em que ousou retratar a violência, também o fez com maestria.

Na cena acima, observamos um rapaz desesperado, tapando os ouvidos enquanto é perseguido por três mulheres furiosas. Todas elas fixam o olhar sobre ele e apontam­-lhe o dedo indicador chamando a atenção do jovem para outra figura feminina desfalecida, apunhalada no coração.

Vestindo um dramático manto vermelho sobre um vestido branco, é a rainha Clitemnestra que acaba de ser assassinada pelo próprio filho, Orestes. A consciência não o deixa em paz!

Ainda no retrato desse drama, constatamos o vigor de quatro corpos em movimento, em contraste com um outro corpo paralisado. Observem que as Erínias (também conhecidas como as três parcas, as moiras, as tecelãs, as Fúrias) possuem cabelos de serpentes. Desfiguradas, suas faces exprimem ódio, indignação e ameaça. Uma delas ostenta uma serpente bem grande como se fosse um chicote, enquanto a outra porta um archote.

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Eruditos, os artistas doutrora prezavam muito a cultura clássica e, como não podia deixar de ser, para compreender os meandros da psique humana, debruçavam­- se sobre os tragediógrafos gregos.

Bouguereau demonstra profunda familiaridade com a tragédia de Ésquilo, intitulada “Eumênides” (548 a.C.), pois o tema retratado nesse quadro é o ato mais aviltante que se pode cometer: o assassínio da própria mãe, o nefasto crime de matricídio.

Para que a fruição, a contemplação dessa obra magistral seja ainda mais completa, perscrutemos por que esse rapaz ousou matar a própria mãe e como a cena retrata a transição do matriarcado para o patriarcado.

A mando do deus Apolo (Sol), o rapaz foi “autorizado” a matar a mãe para vingar a morte do pai.Sim, a mãe de Orestes, Clitemnestra assassinou o marido, o lendário rei de Esparta, Agamêmnon, por ter sacrificado sua primogênita, Ifigênia para conseguir bons ventos e partir para a conquista de Troia.

Historicamente falando, tanto a arte literária quanto a pictórica revela a superação das leis mais antigas (matriarcado) pela nova lei (o patriarcado).

O crime será presidido por Athena que, durante o julgamento de Orestes, no Areópago de Ares(onde eram julgados os crimes de sangue), proferirá seu famoso “voto de Minerva” (nome romano de Athena), desempatando o veredicto do juri.

Para a religião arcaica (cerca de 1.200 a.C.), quem derrama sangue materno ofende e viola o direito inexorável da terra­mãe.

As Erínias, também conhecidas como “As Fúrias”, a vingança, nascidas do sangue que jorrou dos órgãos genitais de Urano (Ouranós, os Céus), ceifado por seu filho Chronos (o tempo, Saturno para os romanos), perseguiriam e não deixariam impune o mais aviltante crime contra a própria natureza. Para esta cultura só existe um laço sagrado: o de mãe e filho.

Retomando o desenrolar da machina fatalis: Agamêmnon sacrifica a filha Ifigênia, é assassinado pela mulher Clitemnestra e vingado pelo filho Orestes, por ordem expressa do deus Apolo.

Apavorado com as Erínias sob seu encalço, Orestes procura abrigo no templo da deusa da Justiça.
Abraçado aos pés da estátua de Palas Athena, suplica por um julgamento e, contando com a pronta defesa do deus da harmonia Apolo, anseia por acolher o veredicto que vier.

Uma mudança não se dá sem luta. Chega o inadiável momento em que se travará o definitivo embate entre: a) de um lado, as catatônicas forças das profundezas da terra, a natureza germinadora, das trevas subterrâneas do Hades, personificações antropomórficas (que o homem constrói imageticamente à sua semelhança) dessas potências (as Erínias representam o matriarcado) e; b) do outro, o dia claro da razão, a nova luz do Olimpo presidido agora por Zeus, o lógos que se impõe à instauração da política humana que se assenta em Diké, a lei da pólis (Apolo e Palas Athena, arautos da nova ordem que representam o patriarcado).

Todo processo de julgamento de Orestes procedem cerimoniosamente como o instituímos até hoje, mais de vinte e cinco séculos depois: apresenta­-se o réu e a denúncia, o advogado de defesa (Apolo) e as acusadoras (as Eríneas), o júri (doze atenienses) e a juíza (Palas Athena).

Quando Orestes indaga ao coro porque as Erínias não perseguiram sua mãe Clitemnestra ao matar seu pai, este afirma não ter sido cometido crime contra o sangue, ao que ele prontamente indaga: “e eu seria, por acaso, do sangue de minha mãe?” Indignadas, as Erínias perguntam: “Não foi ela, assassino, quem te alimentou em seu seio? Renegas o dulcíssimo sangue materno?”.

Para o matriarcado, o pai, seja ele quem for, apenas deposita a semente na mulher, como um lavrador anônimo que semeia a terra, verdadeira fonte de tudo o que brota
.

Já para o patriarcado, a mulher é, assim como a terra, apenas depositária da semente, sendo, portanto, o pai o grande responsável pelo que brota, enquanto a mãe, matriz fria e passiva, não
gera, apenas alimenta o germe nela semeado.

O argumento apresentado na defesa de Orestes por Apolo alude ao nascimento da juíza Palas Athena, ela mesma gestada nas meninges de Zeus e parida pela machadada certeira do ferreiro divino Hefestos(Vulcano para os romanos).

Iradas com Apolo, as Erínias vociferam e ameaçam: “Tu jovem deus, esmagas nossa velhice, mas aguardo a sentença e contenho até lá minha cólera contra a cidade”.

Enquanto os doze cidadãos atenienses depositam seus votos na urna, a deusa da Justiça esclarece: “Serei a última a pronunciar o voto. E os somarei aos favoráveis a Orestes. Nasci sem ter passado por ventre materno; meu ânimo sempre foi a favor dos homens, à exceção do casamento; apoio o pai. Logo, não tenho preocupação maior com uma esposa que matou o seu marido, o guardião do lar; para que Orestes vença, basta que os votos se dividam igualmente”.

Faz­-se silêncio. Diante da ansiedade de todos os presentes, uma pausa. A deusa dá seu veredicto “Este homem está absolvido do crime de matricídio porque o número de votos é igual dos dois
lados”. Há em jogo algo mais relevante neste tribunal in dubio pro reo, neste tribunal da justiça e não da vingança.

Com o “voto de Minerva” dá­-se o estabelecimento da supremacia da luz do lógos sobre as “Fúrias”, forças ctônicas da natureza. O pai, guardião do lar e não a mãe, tem a prioridade do direito que procede de Zeus, pai de ambos, Apolo e Palas Athena. Estes são os novos deuses, os do Olimpo, com suas novas leis.

Sobre o inconformismo das imortais Erínias, habitantes das entranhas da matéria, elas, filhas da noite, que originam toda espécie de vida “detentoras do nascer e do morrer, os dois pontos finais entre os quais, segundo Platão, move­sse a trajetória de todas as coisas”, vaticinam sérias ameaças à cidade de Atenas.

A sapientíssima juíza, gestada na cabeça (razão) de Zeus, graças à arte da retórica, conteve as “Fúrias”com incomensurável empenho.
Reconhecendo seus poderes, prometendo- ­lhes mansões e templos dignos, tem seu voto de desempate acolhido pelas Eríneas que passam a ser reverenciadas em Atenas e a ser chamadas “Eumênides”: as benevolentes (daí o título da obra). Quem mais senão a diplomática Palas Athena, com seus lúcidos e irrefutáveis argumentos para aplacá­las?

Por não vivermos mais numa sociedade exclusivamente agrária, governada e endeusadora da terra e da fertilidade, por termos agora que estabelecer novas leis conciliatórias sobre a violência que nasce da vingança dos crimes de sangue, do “sanguine coniunctae” que dizimava famílias inteiras na Hélade, o direito ao julgamento, a política da pólis se impõe: Vitória do Lógos!

Elementar que a contagem de votos tenha empatado: o filho é do pai tanto quanto também é da mãe. Superada a fúria cega das forças brutas, indiscriminadamente germinadoras, caberá à pólis, pela primazia da ratio, deter o caos e instaurar uma nova ordem. Poder germinador da terra, dom e graça das Mães. Mas, para que não haja desequilíbrio, constatamos que não é mais sábio (Palas Athena)nem harmonioso (Apolo) que o exerçam sozinhas, quando antes da pólis.

Do ventre das férteis Erínias de nosso solo ainda proliferam frágeis e desamparadas sementes de irresponsáveis(posto que ausentes)lavradores anônimos. São as crias da escuridão e da injustiça, distantes da justiça de Athena, da luz de Apolo.

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“Vanitas vanitatum et omnia Vanitas” (Vaidade das vaidades, tudo é vaidade) Eclesiastes por Luciene Felix Lamy

Queridos, este post era para ser publicado ontem no dia do professor para homenagear uma professora, educadora e filosófa incrível, a Luciene Felix Lamy, que por sorte é nossa colaboradora. Mas, como todo dia é dia de homenagear quem tem o dom de transmitir conhecimento aqui vai:
Parabéns querida Luciene!! É o maior orgulho pra mim ter seus textos e análises publicados no blog.

Para quem ainda não teve oportunidade, clique aqui pra ler o primeiro post que publicamos, o segundo clique aqui e para conhecer mais sobre a Lu e sobre o que ela escreve clique aqui.

Leiam vocês mesmos com seus próprios olhos e vejam porque vale a pena acompanhar cada texto dela.
Boa leitura e reflexão!
Aguardamos os comentários!

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São Jerônimo (que traduziu a bíblia do hebraico e aramaico para o grego e o latim) por Caravaggio (1605-6), Galleria Borghese, Roma.

O tempo muda, e com ele, emerge novos conceitos, que respaldados pelo “zeitgeist” vigente impõe-se como modismo. Alguns modismos, como os “Vanitas”, se tornam “clássicos”.

Em tempos d’outrora, distintivo (“chique”) mesmo era pendurar um enigmático “Vanitas” na parede da biblioteca (ocupada hoje pelo home-teather) e ter assim, assunto para se encetar uma boa prosa filosófica (vida, morte e tempo), enquanto se finalizava o agradável jantar saboreando um licor.

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Harmen Steenwijk – 1640

Mas, o que é um “Vanitas”? Um “Vanitas” (do latim, vacuidade, futilidade, algo vão, sem valor) é a representação dramática de um gênero singular de natureza morta surgida no norte da Europa e países baixos nos séculos XVI e XVII com forte conteúdo simbólico de cunho moralizante que busca chamar a atenção para o quão efêmera é a vida, fugidios seus prazeres, vãs suas glórias e para a irreversibilidade da condição que nos distingue do Criador: mortais.

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Pieter Gerritsz – 1630

Com o enaltecimento dos “Vanitas”, o gênero “natureza-morta” – o patinho feio da pintura –, tão apreciado pelos holandeses, foi alçado a patamar de honra. A morte era uma realidade muito próxima e os pregadores calvinistas eram fascinados pelos interditos do Livro de Eclesiastes, no Velho Testamento. Do ponto de vista filosófico, arrisco dizer que o gênero é “Existencialista”.

Uma obra dessa natureza, que é um imperativo chamado para reflexão sobre valores, expressava que a alma do detentor estava consciente da insignificância da vaidade humana. O paradoxo é que se pagava muito caro por tamanha insígnia de sapiência: ostentar um “Vanitas” era caríssimo, acessível somente às pessoas de posses.

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Hendrik Andriessen – 1650

Nesse tipo de obra, explicitando perecividade e finitude, observamos a presença de figuras que aludem e contrapõe: 1) vida terrestre espiritual e contemplativa e, 2) vida terrestre hedonista, luxuriosa e sensual.

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Pieter Claesz – 1625

São recorrentes, então, insígnias de poder (colunas clássicas, coroas, tiaras, mitras, medalhas, elmos, escudos, emblemas heráldicos, espadas e outros adereços que remetam à honra), símbolos de fortuna e riqueza (moedas de ouro ou prata, tecidos requintados, sedas, veludos, bordados e brocados, pedras preciosas, pérolas, conchas e outros objetos preciosos), referências aos prazeres libidinais e luxuriosos (espelhos, cartas de baralho, vinhos, instrumentos musicais tais como flautas e charamelas), alusões à perecividade (flores frescas ou já murchando, frutas suculentas ou apodrecidas, relógios, ampulhetas, bolhas de sabão, borboletas, fio de vela já se apagando), além dos emblemas de imortalidade (livro) e de finitude (o crânio humano), impondo o inexorável destino comum a todos nós, que é morrer.

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Adriaen van Utrecht – 1642

Condenador dos prazeres mundanos, pois erigido sob o solo do discurso de cunho religioso moralizante de apelativo fervor puritano, o melancólico “Vanitas” encontra respaldo na Bíblia judaico-cristã.

De lá para cá, muitas caveiras se passaram e o uso alegórico do crânio ganhou outros significados (que o diga o renomado estilista brasileiro, Alexandre Herchcovitch). E isso porque, a visão que temos da morte passa por “n” perspectivas: temor, respeito, angústia, perturbação, sarcasmo, cinismo, deboche e até provocação. Diante dela, difícil é ser indiferente. Independente disso, intensamente expressiva em suas representações, a morte paira a espreita, triunfa sobre as frivolidades mundanas, sejam quais forem e, alheia ao que pensemos que seja, é o que é.

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Edwaert Collier – 1693

Ao passar todo esse sermão através das pinceladas, um “Vanitas” pretende repreender a ignorância sobre os falsos valores, advertindo que: “(…) os seus vícios e horrores, as suas paixões desonestas, desvairadas de cegas, funestas, os seus apetites venais insaciáveis, as suas perigosas irracionalidades, as suas pulsões inconfessáveis (…)”, tem um fim. Esse é o drama.

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Philippe de Champaigne – 1671

Tela e pincéis em mãos, escolha os elementos, desenhe e pinte o SEU “Vanitas”, afinal, a obra é o que permanece.

Blog da Luciene:
http://lucienefelix.blogspot.com/

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Sobre o coração…

Queridos, li este texto no sábado e quis compartilhar.
Espero que gostem!
Beijos

Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o poderá conhecer? Jeremias 17:9

Certa vez ouvi uma frase que dizia: “você não julga as coisas como elas são, mas sim como você é”. Existe muita verdade nesta frase. Nossa experiência de vida é determinante neste sentido.

Gostei da maneira como o Pr. Rafael Reis descreveu a realidade do texto mencionado acima.
Segue:
“Tudo o que vemos no mundo é percebido e definido por um padrão mental, um conceito universal que gerencia todas as nossas opiniões. Por esta razão, antes de avaliarmos e fazermos julgamentos, devemos ter certeza de que estamos olhando as coisas através da lente correta.
O conceito que nós temos das pessoas geralmente é um subproduto da nossa experiência pessoal, e isso molda nossa relação com o próximo.

Se em minha experiência pessoal uma mudança não aconteceu, não acreditaremos na mudança alheia. Porém, se uma mudança tomou lugar em nossa vida, passamos a crer na mudança dos outros.

Mesmo que você ainda não tenha experimentado o perdão na sua vida, isso não quer dizer que ele não exista. Mesmo que você ainda não tenha sido transformado, isso não exclui a possibilidade de outros terem sido, simplesmente pelo fato de que Deus é amor.”

Experimente esse amor e verás uma transformação completa em seus relacionamentos e em sua própria vida.
Pr. Igor Bolichoski

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A sua criatividade está envelhecendo junto com você?

Hoje tem post meu no Consueloblog sobre criatividade e envelhecimento.
A entrevista é com a autora da tese, a artista plástica e educadora Maria Cininha.
Passa por lá e deixa sua opinião!
Eu quero saber!

http://www.consueloblog.com/criatividade-envelhece-tania-sciacco-explora-com-maria-cininha/

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Análise de uma obra de arte de Van Eyck por Luciene Felix Lamy

Luciene Felix Lamy é colunista do Consueloblog e na sua coluna deste mês fez uma interpretação incrível e completa desta tela de Van Eyck.
Pedi e ela autorizou que publicassemos aqui no blog.
Não mudei nenhuma palavra do que foi publicado no post e nos comentários.
Olhe o quadro e acompanhe a análise. Este quadro nunca mais será o mesmo pra você.

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Eu diria que essa obra de Van Eyck é precursora da revista “Caras”, pois testemunha o casamento do próspero banqueiro italiano, Giovanni de Arrigo Arnolfini, e sua eleita, Giovanna Cenami, insistindo em quão são abençoadamente afortunados. Será?

Sim, as feições de Arnolfini, que fez fortuna recolhendo impostos sobre importados, lembra o rosto de… Vladimir Putin. Ele se veste com sobriedade e, para um homem de sua posição, esse seu “manteau” era o que havia de mais elegante e distinto na época.

Já sua eleita, a jovem e bela Giovanna, segundo, Robert Cumming, “vinha de uma rica família italiana, e sem dúvida sua união foi cuidadosamente arranjada com
um ‘bom partido’” (esse negócio de “bom partido” pode ser uma cilada, mas falaremos de dinheiro – o seu e o dele – quando estivermos nas Casas 2 e 8, OK?). Nada de economia com tecido: ela usa um amplo vestido verde, cor símbolo da fertilidade.

Destaque para o franzido fazendo certo volume no abdome, que era considerado de bom tom, pois prenunciava uma futura gravidez. Aliás, o detalhe das peles nas mangas, no barrado e na gola também é indicativo de riqueza. O primoroso bordado do véu e no vestido dela também atesta o quão minucioso é Van Eyck.

Tudo, absolutamente tudo nessa pintura é dotado de significado (se tiverem interesse, discorreremos sobre esse simbolismo aqui mesmo, na área de “Comentários” do ConsueloBlog): a forma em que as mãos se unem, o lustre e sua única vela acesa, o cãozinho, os tamancos dele e dela (suas posições e cores), o espelho, seu reflexo e a via crucis nele, o rosário de cristal ao lado do espelho, as laranjas (fruta de rico, na época, pois eram importadas), a Santa Margarida (padroeira do parto) ou, pela mini vassourinha ao lado dela, Santa Marta (padroeira das donas de casa) entalhada na cabeceira da cama, a assinatura em gótico por extenso do nome completo do autor (reparem que o “J” de Johannes está estilizado em forma de cornucópia (cornos da cabra Amalthéa, que simboliza abundância), seguida das palavras em latim “fuit hic”, que significa “esteve aqui”, a mão direita do noivo aberta em direção ao ventre da noiva, como que abençoando seu futuro rebento, o “luxuoso e caríssimo tapete da Anatólia” junto à cama do casal e o que mais pudermos encontrar.


Sobre os detalhes da obra “O casal Arnolfini”, vamos observar:

As duas mãos do casal estão delicadamente unidas, como se fossem uma só, e esse gesto é reiterado no candelabro de uma única vela. Observem que ele está pendurado imediatamente acima delas. O “cobre” desse candelabro é um espetáculo à parte!

Agora, não é intrigante que um casal tão rico acenda uma única vela em seu candelabro justamente no dia de seu casamento?
Mas há uma razão para isso. Dizem que era costume acender uma única vela na noite de Lua de Mel para que favorecesse a fertilidade.

Noutra interpretação, essa única vela também pode ser entendida como sendo “o olho de Deus, que tudo vê”. Não duvido, pois nessa época a consciência das pessoas estava realmente certa disso, que Deus vê tudo. Aliás, esse era um “ideal” católico medieval: fazer tudo como se na presença de Deus. Um pintor que insiste nessa temática é o contemporâneo de Van Eyck, o espanhol Hieronymus Bosch (1450-1516), que analisaremos oportunamente.

A presença do animalzinho doméstico dá o toque de leveza à austeridade do momento e, sendo um cão, remete à fidelidade
. Nota-se que não é um vira-latas, mas um cãozinho de raça, talvez “importado”. É provável que tenha sido também por isso que esteja inserido no registro, para denotar as posses dos donos da casa (ainda bem que esse costume se rarefez e, cada vez mais, adota-se cãezinhos abandonados). A delicadeza, paciência e precisão de Van Eyck em pintar os pelinhos desse ‘lulu’ são visíveis.

Os tamancos dela, em vermelho, são delicados e confortáveis. Estão junto ao leito, indicando que é onde e como a mulher “deve” estar: disponível e dentro
de casa. Calma: estamos em 1421… Para se ter uma ideia, ainda faltam uns 200 anos para surgir um Vermeer, que também não é “moderninho”.

Já os tamancos do Sr. Arnolfini, mais rústicos, estão destacados como que na entrada do quarto, indicando que logo sairá para tratar de seus negócios, fora de casa
. Esse é mais um simbolismo dos valores da época: homem lá na rua, trabalhando. Mulheres em casa, zelando do lar. E, postos de lado, significava que estavam envolvidos num ritual, nesse caso, de casamento.

Em volta de todo espelho há o reflexo do pintor e de mais duas pessoas, certificando o testemunho dessa união cristã. Há também a minúscula pintura das “Estações da Cruz”, em volta do espelho, simbolizando que o casal é religioso. E, talvez, lembrando que o casamento passa por fases e requer sacrifícios.

O rosário de cristal pendurado na parede foi presente do noivo para Giovanna: simboliza a pureza e a devoção que ela deve ter para com ele. Parece que era típico da época que o noivo presenteasse a amada com algo valoroso sim, mas de cunho religioso.

As laranjas (na época, raras e caríssimas no norte da Europa) também eram chamadas de pomo-de-adão, indicando a luxúria mundana que só poderia ser santificada através da sacralidade do matrimônio.

As janelas se abrem para dentro e possui detalhes de um delicado e colorido vitral.

A cama, com uma colcha vermelha, cor da paixão, era um objeto mobiliário importantíssimo nas casas dos antigos nobres: era lá que eram gerados os futuros herdeiros. Lá se nascia e também lá se morria, no leito. Reparem que ela tem um dossel, e que esse termina com uma franja (de seda?) arrematando o final de toda parte superior. O entalhe na cabeceira da cama também é primoroso.

Por fim, curiosamente, há uma espécie de… Dois monstrengos (duas gárgulas?) entalhados nas laterais da cama que, se for isso mesmo, só pode ser para espantar os maus fluídos, o mau-olhado, outra crença enraizada nessa época.

Agora, intrigante mesmo, é esse chapéu do Sr. Arnolfini: não sei dizer de onde e por quê surgiu o modelo. Tampouco faço ideia dele não tê-lo retirado nesse momento solene. Talvez fosse por conta de ser mais um item fortemente indicativo de sua posição.

Segundo especialistas, essa obra permanece inigualável no quesito “pintura à óleo”. Mas para Michelangelo, “a escola flamenga tenta fazer bem tantas coisas que não faz nenhuma.” (algo assim).

Claro que cada um sente a obra de uma forma distinta, pessoal. Eu, por exemplo, ao contemplá-la não deixo de ver, em cada detalhe, um engodo. O testemunho de uma ilusão. E sou levada a pensar na doce e terna Giovanna. E em sua falta de opção.

Mil beijos a todos e, muito, muito grata pela participação, amigos!
lu.

E ainda leiam a observação de uma leitora do Consuelo blog:

Querida Luciene, sobre os tamancos, observei que os dela estão numa posição de “receber” o homem, ou seja juntos nos calacanhares e abertos nas pontas. Já os dele estão na posição contrária, juntos nas pontas, como uma cunha, uma posição de “introdução”. Macho e fêmea, portanto. Não sei se essa observação é válida, ou se isso foi intencional da parte do Van Eyck, mas me pareceu bem interessante. O que vc acha?
Beijos
Eliana

PS: Só para complementar, eis minha resposta à observação da leitora: “Que perspicácia, Eliana! \o/
Perfeita sua análise e conclusão, amiga!
Não digo que quem ensina é quem + aprende?
Mas é claro que nada, absolutamente nada nessa obra é aleatório: cada cor, cada posição, objeto e etc., tem um significado implícito. Assim é um mapa astral: quanto + você olha, + descobre coisas que não havia reparado.
Parabéns!!! E muitíssimo grata por sua preciosa colaboração: nos enriqueceu ainda mais.
Mil beijos,
lu.”

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